segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Sobre Jumentas e angustias

Sinceramente, meus textos estão sendo postados com uma frequência tão aleatória que eu vou desistir de postar os tradicionais pedidos de desculpas iniciais. De agora em diante, está implícito em todo começo de texto meu esse pedido de desculpas.
Passando para o que realmente interessa. Essa semana um fato me fez lembrar um detalhe interessante. Os grandes, e por vezes chatos, especialistas em educação médica comentam sempre a falta de preparo acadêmico para a aceitação da morte como um processo natural da vida, como uma consequência óbvia dela. Talvez eles falem tanto que a maioria de nós já esteja pouco a pouco procurando entender isso, mas uma está sendo esquecida, algo que não é tão natural, mas seria algo tão comum quanto a morte: o nosso fracasso.
Essa semana, em um dos meus últimos plantões no Satélite (sim, isso também pode render muitos textos) eu recebi uma mãe e uma criancinha. O menino era uma criancinha sem muita simpatia e orelhar bem avantajadas, mas que não parecia tão chateado com o corte no braço; na verdade ele parecia mais entretido com as luzes da sala de sutura. Depois do bom e trabalhoso oficio de aprendiz de pediatra no qual eu passei cerca de dez minutos tentando convence-lo a me permitir fazer a sutura eu comecei o serviço. Obviamente, durante a anestesia eu perdi toda a credibilidade que eu havia conquistado e ele passou a chorar compulsivamente. Quando eu notava que era aproximadamente a metade do meu serviço, a mãe, até então muito calma, começou a gritar e dizer ia levar o filho dela embora porque eu estava “judiando” dele, que o menino estava sangrando e que se eu quisesse aprender a suturar eu deveria procurar uma jumenta e não os filhos dos outros. Obviamente, respirei fundo, expliquei os riscos que o menino corria se ele fosse embora sem a sutura e que ele não estava tendo nenhuma dor. Tentei mostrar pra ela que o choro do menino era justamente na hora que a agulha não estava cortando a pele. Enfim, fiz tudo que nos ensinam como técnicas para ter uma boa relação com pacientes e familiares. Para a minha surpresa, todas essas técnicas falharam e enquanto eu lavava minhas mãos a mãe saia batendo a porta e destruindo a reputação que um acadêmico já não tem em um corredor de hospital. Obviamente, reagi como em toda situação em que me sinto constrangido/triste/desconfortável/irritado/humilhado: fiz contei a todos o acontecido e fiz várias piadinhas... ri.
Agora, sem ninguém me olhando, sem a obrigação de mostrar que o episódio não me abalou eu começo a pensar quantos momentos parecidos com esse eu vou enfrentar durante minha vida, quantas vezes, apesar de eu fazer tudo certo tudo vai dar errado, ou ainda pior (como aconteceu naquele dia) tudo vai dar certo, e ainda assim vão me culpar por um erro que não existe. Apesar de ser esse cara tão conhecido por ser desastrado, será que eu sei trabalhar com esses tipos de derrotas? Confesso que isso tudo tira meu sono (no caso de hoje, literalmente, visto que são 04h30min da manhã). Espero ansiosamente o dia em que não vou rir quando algo assim acontecer.

Um comentário:

  1. Melo, eu não acho que esse seja um tipo de derrota e nem acho que será algo frequente a ponto de se preparar emocionalmente agora. Dr Lauro Filho (pai) com certeza passa anos sem isso, pelo que a gente conhece dele... por que tu não?

    Mas fikdik, se quiser aprender a suturar, procure uma jumenta e não o filho dos outros huehueueu eu sempre vou rir desse tipo de coisa

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