Bem, no ultimo post tinha prometido um clima alegre no post de hoje, mas na verdade, hoje estou um pouco nostálgico, afinal estou acabando de chegar do meu ultimo plantão oficial no Hospital do Satélite. Definitivamente, sentirei saudades e para me despedir, para o post de hoje escolhi um tema recorrente naquele hospital: a difícil comunicação entre médico e pacientes.
Em matéria de linguagem, dois momentos são chocantes para o aluno de medicina. O primeiro deles é o contato inicial com a língua médica. Para um estudante do ensino médio que achava eritroblastose a palavra mais complexa do mundo, ver todos aqueles termos da nômina anatômica é desesperador. Mas, de fato, o mais desesperador é quando você volta ao mudo real. Depois de uns três anos convivendo exclusivamente em um ambiente acadêmico, sendo diariamente bombardeado com termos que a maioria da população não faz nem ideia que existe e crucificando um professor que em um lapso solta um “seje”, o aluno de medicina é jogado de volta para o mundo real. Quando menos se espera, te colocam em uma sala atendendo pacientes cuja escolaridade muitas vezes não passa da quarta série, ou, como eles mesmos se definem, pacientes “rudos”.
Claro, nesses tempos de estudante já vi coisas bem interessantes. Pelos meus ouvidos já passaram clássicos como a grave doença dos rins chamada rinite e a mais grave e misteriosa das doenças pediátricas; aquela que só é curada com reza forte e o único meio profilático efetivo é a fita vermelha no braço: o quebranto. Mas hoje, passaram por mim pessoas com queixas interessantes e especialmente hoje eu fiz questão de tomar nota.
A primeira delas era uma mulher de trinta e poucos anos que tinha uma das faces deixa o médico tocado: uma mistura de dor e vergonha que acompanhado de um caminhado lento e cuidadoso é quase patognomônico de bartholinite. A queixa dessa paciente não podia ser diferente, afinal o principal problema da bartholinite é... a dor na perseguida (pirsiguida, para alguns). Confesso que na primeira vez que escutei esse termo fiquei me perguntando qual seria sua origem, mas na verdade não foi preciso muito raciocínio para chegar a uma conclusão, acho que a maioria de vocês já entendeu. Né?
Outros dois paciente me apareceram com uma queixa bem comum: naiscidas. Doença que para alguns médicos metidos a besta é um simples abcesso subcutâneo. Seria trivial se não fosse o fato que ambos vieram com alguns detalhes. O primeiro deles me tomou uma meia hora de explicação sobre a drenagem e quando eu finalmente terminei, ele me perguntou se junto com o pus tinha saído também o sangue moído que tinha dentro também. Juro que não sei se corro risco de ser processado por ter dito que tinha tirado o tal sangue, sem nem sequer saber o aspecto desse tipo de sangue. O segundo paciente, por sua vez foi bem mais simples, afinal a naiscida dela já estava sarjada e eu não tive tanto trabalho com ela.
Apesar de hoje ter terminado esse meu estágio, como um bom médico piauiense, nordestino, meio correntino, ainda me resta a certeza que muitas expressões como essa me aparecerão. Ou melhor, como as coisas do mundo andam hoje, só me resta torcer para que essa língua nossa e só nossa não se acabe e continue me surpreendendo pratica médica adentro.
Té mais vê
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
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Adoro teu blog, Melo, já te disse?!
ResponderExcluirSobre o post... como estudante eu ainda não tenho muitas histórias, mas como paciente... pode-se aprender muito com os colegas de enfermaria (ou corredor, dependendo do hospital).
Exemplo singelo: "Mulher, o médico disse que eu tenho umas 1400 bactérias no meu corpo..." Isso é que é precisão diagnóstica ¬¬'
Beijos,
Alice.